Procurando em meio à paisagem árida dos meus sentimentos algum rosto conhecido, um transeunte que seja, um sorriso que me alente... Mas cá me vejo, quase só. Eu e meu coração esvaziado. Eu, o meu coração e essa desvontade que, desde tempos imemoriais, me assalta, me fere de uma quase-morte que me impacienta.
Fico no meio do caminho entre o ser e o não-ser, um subexistir, um desacordo de vida.
Se partir fosse resoluto quanto eu gostaria, teria partido.
Mil adeuses, se necessários, para o que quase sou.
Mas da alma não sei muito. Só que dói. Não cabe no peito. Apenas isso.
Se um adeus apagasse a alma junto com o cárcere corporal, eu implodiria esta cela fria e bolorenta.
Mas não creio que ela, a minha alma, esteja ao meu alcance.
Ela, sendo eu, é o eu inalcançável das minhas próprias mãos.
A alma, o eu que a Deus pertence, permanece intocável, encolhida em seu leito áspero, à espera da mão divina para sua libertação.
Mas a mão divina está muito ocupada, talvez ajudando os homens a sobreviverem a outros homens, com suas guerras e bombas e sangues e ódios...
O que é uma alma encarcerada, perto da devastadora impiedade humana?
Deixo-me, alma, em companhia do meu baldio coração.
Ele não sorri. Tampouco ela.
Vai que um transeunte curioso resolva se deter por um breve instante diante das grades da cela fétida, para contemplar meus pedaços. Ele os verá jazindo silentes e pálidos, e então, por um lapso de piedade, talvez lhes sorrirá.
Terá valido a pena a espera pelo Altíssimo, com Sua misericordiosa vontade, que um dia haverá, finalmente, de me poupar da dolorosa sina de existir...
DePrê
Oct 10, 2024 - 9:40 p.m.
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