sexta-feira, agosto 21, 2020

O segundo dia

Hoje o dia está cinza. Muito cinza - como eu.
A natureza com cara de tristeza.
- Será que faço alguma diferença?
Ao meu redor, tudo parece chorar.
Eu não estou chorando hoje. Não quero chorar. Chorei muito ontem.
Agora, alguns pássaros passaram em revoada, gralhando. Mas não eram risos também.
É estranho escrever aqui, porque desta vez eu não desejo não ser. Gostaria - talvez pela primeira vez com essa força toda de desejar - continuar sendo. Tem valido a pena sonhar, planejar, construir.
Mas a faxina geral já começou.
Minhas chances caem mais aí do que pela doença, propriamente dita. Desde que soube dessa mudança que haveríamos de passar, pensei que fosse fazer parte da leva dos excluídos.
O novo planeta não comportará suicidas em potencial nem desajustados. Não caberá nele quem não se enquadra. E, um a um, vamos sendo retirados de cena. É melhor para o todo, para a nova era que se inicia.
Ontem foi o primeiro dia de saber da iminência do fim. O sol parecia insistentemente causticante.
Hoje ele simplesmente se escondeu e nuvens densas fazem o dia escuro e gélido. Mais apropriado à minha alma angustiada. Combinando, feito roupa de festa combina com sapato e laço de fita no cabelo...
Hoje estou densa. Mas o sol, a qualquer dia e hora, poderá voltar a brilhar novamente, então eu precisarei estar vestindo algum sorriso - amarelo, que seja! - pra combinar, feito roupa de festa combina com sapato e laço de fita no cabelo.
Um dia virá a festa. Festas vêm, de vez em quando. Eu gostaria de estar de pé para dançar e me alegrar. Depois de uma vida inteira de quase-mortes sucessivas e indiferentes, de pensar "podia ter ido nessa!" a cada novo abismo do qual me safava, eu finalmente senti desejo de ser.
Mas, é justamente aí que eu talvez não seja mais.
Não pedirei por mim.
Há um trato antigo com Deus no qual falei que não pediria. Vou continuar cumprindo esse trato, independentemente das decisões dEle.
Agradeço por estar respirando. Isso é muito bom!
Vamos ao segundo dia da minha sentença, então!
Sinto-me dando passos num corredor, em direção a um carcereiro que executará meu desenlace material.
Ele não é mau. De modo nenhum!
Apenas cumprirá ordens, será mais um agente desinfetante do nosso planeta. Auxiliar da faxina que já começou.
A cada passo, a angústia cresce. E dias escuros como o de hoje são lembretes da dor. Porque não basta doer, tem que se estar bem cônscio de que dói, pra expulsar a vida de dentro de si mais depressa.
Eu já não queria não ser.
Fazia planos de ser, de construir, de produzir, de gerar coisas boas.
Mas parece que é tarde demais para estes planos. Eu tive meio século para realizar e não realizei porque só queria partir. Agora o tempo de ser está se esgotando...
Vamos ao segundo dia da minha sentença, para ver o que ainda dá tempo de realizar.
Quero ter a ilusão de que a Terra entristeceu com a notícia de que vou partir dela em breve. Mesmo sabendo que ela, na verdade, pede por isso, precisa disso, não está nem aí pra isso!
O dia está combinando com meus sentimentos, feito vestido de luto combina com sapatos pretos e lágrimas sobre um féretro.
Chorarei, mesmo a contragosto, só para condizer com a cena!

DePrê
Aug 21, 2020 - 7:51 a.m.

sexta-feira, março 06, 2020

Autoextermínio

Encontrei a ideia q ontem não me ocorreu:
"Valer a pena"
Precisamos valer a pena.
Quem quer sair da vida, é porque acha que não vale mais a pena. Não compensa mais. Na balança, o peso dos sofrimentos são insuperavelmente maiores do que das coisas boas, ou ainda, são muito mais "dispendiosos" em termos da energia gasta para, em vão, tentar solvê-los, do que a própria pessoa acha que ela mesma "vale" (pelo q produz, pelo que proporciona a si mesma ou aos outros, ao mundo...).
A vida (com seus altos e baixos) precisa valer a pena!
Quando avaliamos que não vale mais a pena, o autoextermínio passa a ser mais do que uma simples opção, uma escolha: torna-se a única justa coisa a ser feita - segundo a concepção do sujeito que sofre - para pôr termo à situação toda.
Na mente do suicida, ele próprio é o pino que liga tudo, ele é a "causa" do que o faz sofrer. Sente-se fraco, impotente, inútil, incapaz, dispendioso, ou seja: ele mesmo "não vale a pena", já que nem pra si mesmo tem sido compensatório viver.
Assim sendo, eliminar-se é eliminar a causa dos problemas seus e dos outros, do mundo. "Um inútil a menos", por assim dizer. O suicida vê o mundo melhor sem ele. Não compreende-se integrante do funcionamento normal das coisas, mas ao contrário, vê-se como o "desarranjo" delas.

EmmyLibra
Nov 12, 2019 6:57 a.m.