domingo, novembro 22, 2015

Perdas...

Angústia dói.
Uma dor  insuportável.
E não é apenas modo de dizer...
Tem horas que a vida parece querer sair de mim, pela minha garganta. E eu queria tanto que saísse! Mas não sai, afinal...
Uma hora dessas eu a despejarei de mim, com minhas próprias mãos!
Quem sabe, esse tal "inferno", que tanto falam por aí, exista mesmo e possa me fazer sentir alguma justa dor, diferente e maior do que a que eu sinto, pra me fazer esquecer que o sentimento que eu tomava como mais nobre, digno e bonito era, na verdade, a mais cruel rasteira que o Criador poderia me dar?
Me sinto lesada. Aprendi, ao longo de quatro décadas desta existência, que o amor era capaz de anular uma multidão de pecados (Jesus) e que ele era o Dom Supremo, era Deus manifestando-se em nós. Hoje, vejo que, descumprindo a promessa trazida pelo Cristo, Deus não abriu as portas quando ei bati; me deu uma serpente, quando eu lhe pedi um peixe;  e transformou em pedra o pão de vida que me havia mostrado, depois de quarenta anos de fome e desamparo que me deixou passar.
Seria menos cruel me deixar faminta pelo resto dos meus dias e pensando que o pão que me saciaria não existia, do que me fazer tomar conhecimento dele e do seu sabor, para tomá-lo de mim no instante seguinte.
Até os seres humanos são mais bondosos e misericordiosos do que esse deus que eu chamava de pai!
Até na DUDH*  convencionou-se não aceitarmos  que seja usado de crueldade uns com os outros, mesmo na hora de punir os crimes mais hediondos!
O Criador, no entanto, não hesitou em me fazer sentir essa dor que me leva a desejar a morte, a rejeitar o céu, a desistir de mim mesma e de todos os sonhos e planos que um dia meu coração abrigou...
Acaso não sabia Deus que eu sucumbiria? Acaso não sabia Deus que eu não suportaria?
Se não sabia, não é um deus. Porque lhe faltaria um atributo fundamental: a onisciência.
Ou será que sabia disso tudo e, mesmo assim, não fez nada para mudar o curso das coisas?
Bem, não creio que seria um deus,  sem bondade.
Ou ainda, teria ele sido simplesmente cruel? Onde estaria o atributo da  misericórdia, imprescindível a um deus?
Deixe-me ver... seria ele, então,  impotente para intervir?
Segundo o meu limitado entendimento, o atributo da onipotência desaparece, nesta última hipótese.
De uma ou qualquer outra forma, não seria um deus.
Hoje vejo o Criador como um ser que não posso amar, respeitar, menos ainda cultuar. Não me curvaria em adoração aos pés de um tirano. Não ergueria as mãos em louvor a um deus que, cruelmente, usou o sentimento mais nobre que ele mesmo criou em nós, como açoite, para me infligir dor e sofrimento. Não consigo entender atributos divinos em quem descumpre promessas, em quem assiste indiferente ao sofrimento das suas criaturas e, ainda pior, que as lança propositadamente  nessas dores.
Deus perdeu o sentido para mim, assim como a minha própria vida.
Nada mais me resta.
Desisto de mim. Desisto de Deus. Desisto da vida, dos sonhos, planos, metas, conquistas.
Desisto do céu. Nele há meu algoz, o juiz cuja crueldade e ausência de sensatez o torna inferior aos "homens de boa vontade", que, ao seu oposto, usam o amor como remédio para a dor, antídoto para as guerras e alimento para sua fé no poder da bondade e da misericórdia.
Deus, em seu manifesto de sadismo, só me afastou dele mesmo. Só me fez apagar tudo de bom que eu senti todo esse tempo por ele. Só me fez entendê-lo como uma grande farsa.
E, depois disso tudo, ainda vai me lançar ao "fogo eterno", tenha certeza disso! Tudo para me punir por enxergá-lo sem as máscaras que as ilusões humanas insistem em pendurar sobre sua face...
Perdi minha vida, o resto de pureza e inocência que me restava, o pouco de bondade que havia em mim, a minha antes inabalável fé, a parca  ingenuidade que guardei em mim (ser como as crianças, não é?) e que talvez fosse suficiente para me permitir cruzar os portões do meu paraíso...
Se, ao menos, fosse por instrumentos de dor que ele tivesse me feito sofrer, eu talvez continuasse pensando que fui merecedora da lágrima. Mas, usar logo o amor para me ferir, plantando-o com profundas raízes em mim, de modo tão definitivo que eu não pudesse arrancá-lo do meu peito... Ah! Isso eu não posso, não consigo aceitar!
Para arrancar de dentro de si um amor que se enraizou à própria alma, o ser, invariavelmente,  feriria de morte a própria alma...
Prefiro não tentar. Prefiro morrer com esse sentimento dentro de mim. Vou ao inferno, mas me recuso a olhar o amor como um erro ou como uma erva daninha que preciso extirpar da minha vida.
Morro. Mas, amando profunda e plenamente, até meu último instante de lucidez.

=(

DePrê
Nov 24, 2015 - 9:51a.m.

*Declaração Universal dos Direitos Humanos