Nem sei quanto tempo faz que viver deixou de ser uma coisa boa.
Só sei que hoje seria um bom dia para sair da vida.
Não tem mesmo valido a pena...
Ontem, por exemplo, foi um dia ruim no começo e péssimo no final. Sair de casa à tardinha me deixou tão angustiada e exausta que parecia que eu ia apagar!
Eu bem queria ter apagado.
Seria, talvez, um tempo de não ser, de estar em suspenso, uma pausa na vida...
Quero sair de casa, caminhar, andar pelas ruas sem destino, sem razão.
Viver não tem mais razão. Por que as outras coisas precisam ter?
Queria sair e não voltar mais. Caminhar e caminhar, até a exaustão, até desmaiar de cansaço, fome, qualquer coisa. Gastar o pouco de energia que há em mim, esgotar tudo. Pensando bem, eu nem precisaria ir tão longe!
Não estou vivendo. Estou mantendo biologicamente vivo um corpo que já não tem conteúdo. Não tem alma. Dia após dia, vou firmando pequenos compromissos, me atando a uma agenda de curto prazo. Mesmo assim, tudo parece tão distante, que corre o risco de eu não esperar mais nada acontecer.
Foi uma comemoração de aniversário que não ocorreu no dia 4 e que foi adiada para o dia 11 e novamente para o dia 18. Mas nem quero mais que aconteça, então desmarquei. Em outras palavras, cortei mais um fio que me mantém ligada ao mundo. Como quem vai desligando, uma a uma, as máquinas de uma UTI, deixando o paciente à mercê do coma.
Agora, espero por um show cujos ingressos já estão comprados e que acontecerá no dia 30. Algo me diz para não ir. Eu, sinceramente, gostaria de ter um fio de esperança de que algo muito bom ou muito radical fosse acontecer lá que me desse nova vontade de viver, mas sei que não há o que acontecer, nem lá nem em qualquer outro lugar ou data. Não há mais nada que possa acontecer que me reanime, me ressuscite, e, não acontecendo, me sinto cada dia mais frustrada.
Não sei se vou. Porque não sei se vou estar aqui até o dia 30. Talvez tenha viajado ou morrido, ou simplesmente não esteja com vontade de ir.
Mas, ao mesmo tempo, sentirei remorso por ter deixado o Cako gastar com os ingressos e não comparecermos.
Estou cada dia mais cansada. Está sendo exaustivo demais carregar este corpo. Estou quase arrastando ele pelos cabelos!
Quero morrer.
Por que eu mesma não consigo me desvencilhar dos tabus sobre a morte e não me precipito a ela, de uma vez por todas, acabando com essa angústia?
Está ficando insuportável viver. E pior ainda, fingindo que tudo está bem, fazendo planos, procurando casa para alugar, cortando tecidos para costurar, firmando compromissos...
Eu olho em volta, vejo apenas paredes, um espaço limitado que não é especificamente o espaço físico do meu apartamento. Porque mesmo estando na rua, é como estar presa. Eu não quero a companhia das pessoas, nem horários a cumprir, nem convenções sociais, nem dar satisfação dos meus atos a ninguém. Não quero responder perguntas, nem perguntar nada. Não quero ocupar meu tempo com nada. Só quero que ele passe. E que eu, de súbito, envelheça tanto, murche tanto, que nada mais de existência haja em mim.
"Já vou sair, mas não arrumei a mala..." Para mim, essa frase tem o sabor amargo da angústia e da covardia. É densa e amarga. Fica pairando sobre a língua, como um causticante ácido, me devorando!
'Eu tô dizendo, eu vou atirar, mas não arrumei a bala."
Eu me vejo tão incapaz de tudo... até de morrer!
Quero muito sair. Só preciso ter um pouco mais de coragem. E uma bala na agulha.