domingo, novembro 17, 2024

Bilhete de passagem

Tantas vezes eu desejei não ser mais. Não estar mais. Não viver mais.
Agora, mais uma vez, tenho no bolso um bilhete de passagem comprado e vejo que meu bonde se aproxima célere.
Em 2017, eu desembarquei do bonde quando ele já ía sair da estação.
Agora, parece que, nem se eu quisesse muito, poderia sair – e eu nem quero... Ou pelo menos, acho que não quero.
Sinto o meu corpo se modificando, uma erva daninha se enraizando por dentro dele.
Já começa a doer e a tirar um pouco da minha respiração – meu pânico maior!
Eu gostaria de ter crédito com o Criador para que Ele me concedesse o direito de respirar até o final. Mas parece que o fato de eu não querer mais viver me desabona.
Embora não haja um ato autoexterminante, há uma recusa em lutar para ficar. Isso basta para que eu seja considerada uma desistente. E desistentes não merecem piedade!
Então, já me preparo para as angústias do sufocamento.
Eu nasci sufocada, roxa, toda entupida de gosmas do líquido amniótico. Parece que vou morrer com a mesma incapacidade respiratória com que nasci e que me apavorou a vida inteira.
Minha cabeça está um turbilhão!
Eu não quero lutar contra isso. Mas há em mim ainda um germe de medo desse abismo desconhecido no qual vou cair em breve.
Um dia, todos vamos, afinal. Uns antes, uns mais tarde... Mas todos, indistintamente, passaremos disso que conhecemos como vida para um suposto estado novo do espírito.
– Por que o medo, então?
Às vezes tenho certeza de que minha escolha pela inércia contra a doença que me aflige é a melhor opção, diante do que foi minha vida até então e diante do rumo que o mundo tomou nos últimos tempos. De nada adiantaria ficar e experimentar mais do mesmo, viver mais do mesmo, aumentar minha coleção de fracassos e culpas e erros e abandonos...
Há alguns flertes de covardia, no entanto, que me fazem pensar em procurar um médico e tentar me curar para continuar a jornada por mais algum tempo. Ou, pelo menos, para abrandar meu sofrimento daqui até meus últimos dias, que se aproximam.
Agora é tão mais real do que das outras vezes! 
Entretanto, a sinceridade do meu coração, ele que não admite hipocrisias, me faz confessar que meu grande medo é ir parar no que algumas crenças religiosas chamam de inferno, outras de umbral e tantos outros nomes que já deram para os sofrimentos da alma, expiatórios ou punitórios de sua desistência.
Tenho medo, sim. Muito medo.
Mas acho desonesto usar dessa tentativa tão provavelmente inútil de sobreviver, gastando insumos medicamentosos e ocupando leito hospitalar no lugar de alguém que veramente deseje a vida, para supostamente merecer a piedade divina e não ser jogada num lamaçal escuro e fétido ou numa fogueira eterna.
Eu não barganho com Deus! Acho isso um desrespeito grande com o Criador. E, igualmente, dEle para com Sua criação, se aceitasse. Não seria Deus.
Agora, vivo angustiada, pensando no que vou sofrer daqui por diante – que já começou a dar sinais – e no que eu poderia fazer se não partisse.
Mas sei tanto que, na verdade, minha vida continuaria essa mesma inutilidade e infertilidade de sempre, que não me iludo senão pelo breve instante em que o medo sussurra no meu ouvido: "Vai sufocar, hein?"

DePrê
Nov 17, 2024 - 9:27 pm

sábado, outubro 12, 2024

Quase

Procurando em meio à paisagem árida dos meus sentimentos algum rosto conhecido, um transeunte que seja, um sorriso que me alente... Mas cá me vejo, quase só. Eu e meu coração esvaziado. Eu, o meu coração e essa desvontade que, desde tempos imemoriais, me assalta, me fere de uma quase-morte que me impacienta. 
Fico no meio do caminho entre o ser e o não-ser, um subexistir, um desacordo de vida.
Se partir fosse resoluto quanto eu gostaria, teria partido.
Mil adeuses, se necessários, para o que quase sou.
Mas da alma não sei muito. Só que dói. Não cabe no peito. Apenas isso.
Se um adeus apagasse a alma junto com o cárcere corporal, eu implodiria esta cela fria e bolorenta.
Mas não creio que ela, a minha alma, esteja ao meu alcance.

Ela, sendo eu, é o eu inalcançável das minhas próprias mãos.

A alma, o eu que a Deus pertence, permanece intocável, encolhida em seu leito áspero, à espera da mão divina para sua libertação.
Mas a mão divina está muito ocupada, talvez ajudando os homens a sobreviverem a outros homens, com suas guerras e bombas e sangues e ódios...
O que é uma alma encarcerada, perto da devastadora impiedade humana?
Deixo-me, alma, em companhia do meu baldio coração. 
Ele não sorri. Tampouco ela.
Vai que um transeunte curioso resolva se deter por um breve instante diante das grades da cela fétida, para contemplar meus pedaços. Ele os verá jazindo silentes e pálidos, e então, por um lapso de piedade, talvez lhes sorrirá.
Terá valido a pena a espera pelo Altíssimo, com Sua misericordiosa vontade, que um dia haverá, finalmente, de me poupar da dolorosa sina de existir...

DePrê
Oct 10, 2024 - 9:40 p.m.