A morte não é um fim em si.
É um fim em tudo que a ela conduz.
É um fim a tudo que dela se origina.
Até ao medo.
Há quem morra para trás.
- Mas não é morrer de trás para frente.
É só morrer noutra direção.
E há, ainda, quem morra prolongamentos da morte.
Constantes, repetidos, autoconsequentes.
Mortes cotidianas,
Perenes.
Tem sido assim comigo, desde que morri.
Morri para trás
E continuamente morro.
Repetidamente entoo os mantras
De um funeral que não termina
Porque já começou nesse randômico final.
Morro uma morte perene,
Constante.
E dói todos os dias esse findar incessante,
Esse morrer para trás,
No qual assisto meu próprio sepultar,
E me dou sempre a honra
Do primeiro punhado de terra.
A cova, de terra sempre fresca e revolta,
Estará sempre à minha espera.
Não tenho tempo de deitar-me
No seu sufocante seio:
Tenho que velar meu corpo
Que jaz, enquanto trabalha,
Cadáver ambulante
À espera do anjo da vida
Com suas longas asas,
Emplumadas e quentes,
Para lhe soprar eternidade, às narinas
Luz, aos seus olhos fechados
E paz, ao seu inerte coração.
DePrê
Oct 4, 2016 - 0:47 a.m.