Eu conheci uma pessoa. Ela esteve aqui por um tempo.
É bom ressaltar, ela era uma pessoa. Genuinamente pessoa,
isso eu sei.
Era comum, mas não tanto, ou não sempre. Tinha algumas virtudes,
qualidades. Tinha alguns defeitos também.
Era inteligente, perspicaz, raciocinava rápida e
precisamente. Tinha aptidão para algumas artes como música e desenho, razoável
senso de estética, facilidade para aprender. Era sociável, culta, cozinhava até
bem!
Às vezes, demonstrava uma força incrível! Era capaz de
suportar tanta dor, tanta angústia, que outro no seu lugar teria surtado ou,
pelo menos, não daria conta de manter-se em atividade constante, estudando,
trabalhando, gerindo projetos seus e de outrem. Outro, em seu lugar, talvez nem
começasse projetos. Nem teria construído nada concreto para sua vida, tamanho
era seu sofrimento, ao longo de toda a existência.
Por outro lado, como dizia seu pai, era “feito carro velho,
que só pega no tranco e não vai muito longe”. Era algo como preguiçosa, porque
largava as coisas pela metade, deixava de chegar aonde queria, porque sempre
interrompia suas viagens no meio do caminho.
De desistência em desistência, ela foi passando os anos. E tanto
desistiu, que acho que se acostumou. Foi assim também com a vida. Deixou-a na
metade do caminho, abandonou-a, saiu de cena. E me deixou em seu lugar,
fingindo sê-la, tentando desesperadamente manter a aparência de normalidade e
de que sua identidade, tão complexa, também era minha.
Não sei se eu justificaria tal fraqueza pelo fato de haver
nela tanta dor e ocupar-se sempre de manter uma resistência quase heroica para
suportar. Mas creio que agora, olhando para as lembranças que tenho dela, eu
lhe tenha alguma admiração ou mesmo piedade, quem sabe até algum tipo de amor? E isso talvez seja suficiente para
me impelir a defendê-la, usando quaisquer argumentos que se me apresentem ao
alcance da mão.
Talvez seja ingenuidade minha defender alguém que fracassou,
mesmo ela tendo razões que supostamente justifiquem suas quedas. Talvez ela, na
verdade, não mereça esse desvelo todo.
Eu lembro dela com um pouco de rancor, mágoa por ter me
deixado no seu lugar, aprisionada no seu lugar, fingindo ser quem não sou, e
tudo isso em defesa dela, que não está mais aqui. Às vezes penso que ela nem
mesmo tem culpa, que eu mesma escolhi esse fingimento, esse papel, sem mesmo
saber por que faço isso... Talvez por aquela tal admiração ou piedade. Só pode
ser.
Ela tinha bons amigos. Alguns desafetos. Muitos até
admiravam-na por suas qualidades. Alguns a detestavam justamente por causa
delas. Inveja? Talvez. Não sei se ela era invejável em algum item. Não creio,
sinceramente, que fosse. Mas digamos que o nome disso seja inveja, para que sua
defesa seja ainda mais convincente!
Eu sei muito dela. Tento não tecer julgamentos, porque eles
poderiam ser contaminados pelo muito que lhe conheço e aos seus defeitos,
consequentemente. Ou pelo muito que lhe conheço e às suas qualidades, que não
podem ser negadas.
Mas hoje, olhando para o que ela foi, não sinto muita coisa.
Já senti pena, outras horas tive raiva, ainda outras eu tentei compreender suas
escolhas, mas de modo geral, eu poderia dizer que ela era alguém que talvez
valesse a pena. Possivelmente eu lhe daria chances novas, quando ela me pedisse.
Era bonito vê-la recomeçar e recomeçar e recomeçar... Também era bom assistir
suas ações de resistência frente à dor que sentia.
Um dia, um homem apareceu em sua rua e lhe disse que ela só
existia porque ele estava ali, sustentando sua vida. E isso era real, apesar
de que ele era, na verdade, um homem bem fraco. A alma dele era muito pequena, incapaz de
carregar no colo a alma dela, tão densa. Mesmo assim, ele reinou sobre sua vida
por dois anos, dizendo para ela o que vestir, a que horas devia tomar banho e
que precisava alimentar-se de modo a estar sempre saudável e com boa aparência
para os olhos dele. Ele a fez desejar estar viva não mais por todas as razões
que ela teve antes, e que a faziam suportar a dor. Ele a fez desejar a vida por
ele, para estar ao lado dele, para cuidar dele, dedicar-se a ele, existir para
ele.
É estranho porque, apesar de sua alma pequena, ele
agigantava-se diante dela, como se montanha fosse, e à sombra da qual ela se
abrigaria de tudo, de todas as ameaças que o mundo poderia lhe trazer. Perto
dele, ela estava mais viva do que antes, porque não havia dor. Não havia
angústia. Pela primeira vez em sua vida, sentiu paz. Descobriu que o que sempre
pensara ser felicidade, não era nada, comparado ao que sentia dentro do seu
abraço. Era um estado de êxtase espiritual, uma tal sensação de completude, de
estar bem, que não se assemelhava a nada que antes dele sentira, nem nas
melhores experiências de sua vida.
Esse homem, que lhe disse que ela só existia porque ele
existia, um dia a deixou morrer. Do modo mais estranho e cruel, ele a deixou
morrer: deixando ele de existir.
Depois da sensação de estar viva percorrendo cada célula do
seu corpo, como uma eletricidade que emanava da presença dele, ela se viu
sozinha, quando ele lhe deu as costas e lhe disse adeus.
Ele não estava mais ali. Nem ela. Porque ela só era enquanto
ele estava disposto a mantê-la viva. Ao partir, ele levou sua vida, sua alma,
seu desejo de ser. E ela sucumbiu. Exauriu-se em si mesma, como uma chama que,
suspensa magicamente no ar, extingue-se de súbito, ao descobrir que seu
combustível se esvaiu.
Eu me lembro dela e tenho até um pouco de saudade. Apesar da
raiva de estar aqui, aprisionada em seu corpo, precisando representar seu papel
o tempo todo, executar sua vida como se minha fosse, ainda assim, sinto falta
de quem ela era.
Mas ela não sou eu. E, principalmente, eu não a sou. Nem de
longe, eu poderia sê-la. Nem sua sombra eu poderia ser! O máximo que tenho
conseguido é manter a aparência dela, que ainda está impregnada no seu corpo,
para que os tolos que com ela conviveram a vida toda não percebam sua ausência.
O máximo que posso fazer é usar suas pregas vocais, adestradas e automatizadas,
robotizadas por sua influência, para dizer o que ela diria, cantar como ela
cantaria, mantendo o papel dela em maior grau de fidelidade possível, e sem
despertar os outros para sua inexistência.
Até quando vou manter essa farsa?
Ainda não sei. Creio
que seja por poucos dias, a partir de agora. Restam poucos dos seus
compromissos a cumprir, o que me dará tempo para esquematizar minha saída do
palco, deixando nele as vestes que hoje me caracterizam com suas cores.
Mesmo assim, esses poucos dias que me restam de atuação
teatral estão me angustiando tanto... Está tão difícil manter a aparência de
que tudo está bem, de que nada mudou, de que a vida é linda e aquela pessoa que
eu conheci ainda está aqui, neste corpo que agora eu carrego como pesado fardo,
de um lado para outro do palco...
Ela não está mais aqui. E não sê-la me faz vulnerável. Uma
hora, a máscara pode cair ou mesmo entortar, e deixar vazar para as pessoas que
eu não sou quem eles pensam. Que eu apenas transporto um corpo já vazio, sem
vida, sem qualquer rastro de essência da alma que habitou nele um dia. E me
envergonharei desse crime. Falsidade ideológica, é o que estou praticando!
Finjo ser alguém que não sou, assumindo sua identidade, até que sua agenda de
compromissos esteja cumprida...
Ela sempre foi magricela. Mas seu corpo pesa tanto, tanto,
tanto... Estou esgotada! Já não tenho energias para mantê-lo de pé,
locomovendo-se com naturalidade por muito tempo mais.
Na ausência das pessoas com quem tenho convivido, enquanto
atuando nessa bizarra peça teatral, tenho ficado o mais imóvel possível,
poupando as últimas reservas de energia que ainda restam. Por mais alguns dias
elas precisam ser suficientes para que eu não siga os maus exemplos da personagem que encarno e
desistir do papel antes do grand finale.
Só mais alguns dias... Só mais alguns dias...
Repito estas palavras feito um mantra, em meus pensamentos.
E tento me convencer de que ela valia pelo menos o esforço de manter seu nome
limpo, até que as horas fatais se precipitem sobre seu corpo, desnudando-o para
que o mundo saiba que ele estava morto desde muito antes que as pessoas
pudessem perceber.
Quanto àquele homem que levou consigo sua vida, aquele fraco
de alma pequena que não sentiu por ela sequer um lampejo de ternura, posso dizer que ele anda por aí, vagando entre fingir que não se importa e não se
importar, realmente. Talvez até carregue no colo a alma de outra mulher. Mas
duvido muito que ela não seja, como a dele, uma alma pequena, diminuta, sem a
densidade e o peso dos valores que ele destruiu na pessoa que conheci e por
quem ainda mantenho esse bizarro teatro.
É... Talvez essa pessoa valesse mesmo a pena, apesar de carregar
em si defeitos tão grandes. Eu até gostaria de sê-la. Mas não sou. Pena que não
sou...
Quem eu sou, então?
Ninguém.
Eu sou ninguém.
Eu sou ninguém.
=(
DePrê
Sep 28, 2015 – 9:23am
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