sexta-feira, junho 19, 2015

Irremissível

Eu quero a morte.
Não precisa ser suave e indolor. Pode ser brusca, de assalto!
Pode ser esmagadora, pungente. Mas que seja morte – definitiva e incontestável.

Tudo o que é incontestável me fascina!
O que não deixa dúvidas, o que não hesita... Não volta atrás.

A morte tem isso, esse caráter imutável, irremissível, retilíneo, decisivo, decidido, cru.

A ausência de caminhos angustia, mas escolher é tão ou mais angustiante quanto não ter opções.
As respostas, assim, já foram todas dadas, construídas. Sem dúvidas.
Morrer também significa não precisar mais fazer escolhas!

Não quero deixar de viver.  Quero a morte — é diferente!
Deixar de viver é um impedimento. Não quero impedimentos, quero liberdades.
A morte, então, ganha tom de heroísmo!
É o cavaleiro bravo que me retirará dos grilhões de estar viva.

Eu quero a morte. Impiedosa e firme, soberana.
Quero ouvir o silêncio de não ser.
— Viver tem sido um turbilhão de sons incômodos demais!

Quero o sagrado direito de dizer até onde quero estar na vida.
Já que não tive o direito de entrar nela por minhas próprias pernas, quero o direito de sair assim.

Caminhos sem volta: já estamos todos seguindo-os sem perceber.
O tempo é sem volta, os atos não têm volta, as palavras não têm volta, os pensamentos não têm volta.

Muitas pessoas pensam que pedidos de desculpas e arrependimentos são suficientes para regredir no tempo e desfazer o que foi feito, desdizer o que foi dito, des-pensar o que foi pensado, girar para trás os ponteiros do relógio da vida.
Mas não são. 

A ilusão de ter pontos de retorno nos sacia por certo tempo...  Mas não para sempre.
Um dia, a inexorável ação da morte nos ensinará a olhar para o definitivo como algo bom.

Eu quero a morte. 
Quero a irremissibilidade da morte, com suas decisões irreversíveis.
Quero algo que me resgate da loucura, dos medos, das saudades, da existência incerta e frágil.

Agora entendo por que escrevem nas lápides "descanse em paz".
A vida é feita de dúvidas angustiantes, ao contrário da morte, com suas irrevogáveis palavras de ordem.
E, definitivamente, não pode haver paz na incerteza!

Deprê
Jun 18, 2015.

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